Coins Edição #1: A Espiral dos Karamazov – O Prólogo de Uma Tragédia Russa - pt 1
Prezados leitores,
Quando nos aproximamos de “Os Irmãos Karamazov”, a última e maior obra de Dostoiévski, é comum ouvirmos sobre seu denso teor filosófico, seu julgamento moral da Rússia czarista ou sua profundidade psicológica. No entanto, o primeiro livro(que compreende os primeiros capítulos da obra) muitas vezes passa como uma “mera introdução”. Hoje, proponho uma reflexão: e se ali, nesse prólogo aparentemente tranquilo, estiver o mapa completo da tragédia?
1. Um Início Enganoso: A “Fofoca Literária”
Dostoiévski começa não com um evento grandioso, mas com uma voz quase trivial: um narrador que se apresenta como “crônico local”, misturando tom jornalístico e confissão íntima. Essa escolha é genial. Em vez de nos lançar direto no drama, somos conduzidos por uma biografia familiar cheia de humor ácido e detalhes quase fofoqueiros. Conhecemos Fiódor Pavlovitch Karamazov, o pai, como um “velho palhaço corrupto”, e seus filhos como produtos de abandonos e traumas.
Aqui, uma ideia trivial: poderíamos ver esse início como uma “novela de costumes”. Mas a crítica percebe: Dostoiévski já está tecelando a teia da responsabilidade. Cada atitude do pai – egoísta, cínico, devasso – será a semente do crime, não só físico, mas espiritual.
2. Os Quatro Irmãos: Arquétipos em Conflito
No Primeiro Livro, os irmãos são apresentados quase como quatro facetas da alma russa (e humana):
- Dmitri (Mitia): o apaixonado, o “homem terreno”, dividido entre o sensual e o nobre.
- Ivan: o intelectual, o cético, que sofre pelo racionalismo europeu importado.
- Aliocha (Alexêi): o religioso, o “herói positivo” de Dostoiévski, representando a fé e a compaixão.
- Smerdiakov: o ilegítimo, o “homem do porão”, fruto do abuso e símbolo da degradação moral.
A trivialidade? Pensar neles como “tipos”. A profundidade? Eles não são apenas personagens, mas ideias em confronto. O grande debate entre fé e razão, entre culpa e redenção, já está ali, no modo como cada um reage ao pai.
3. O Mosteiro: O Palco da Primeira Grande Cena
A reunião no mosteiro, com o starets Zossima, é o ápice do Primeiro Livro. Ali, o conflito familiar torna-se conflito cosmovisão. Fiódor faz palhaçadas, Dmitri se descontrola, Ivan discute sobre teologia, e Aliocha observa com dor.
É fácil passar rápido por essa cena, mas note: é um microcosmo da obra. A Rússia do século XIX está toda ali: a velha aristocracia decadente (Fiódor), a crise da Igreja (Zossima), a dúvida intelectual (Ivan), a busca por um novo caminho (Aliocha).
4. Ideias que Ecoarão
- “Tudo é permitido?”: Ivan levantará isso depois, mas já se insinua aqui. Se Deus não existe, a moral é só um contrato?
- O parricídio como símbolo: O assassinato do pai não será apenas um crime, mas o assassinato da autoridade, de Deus, do passado.
- A culpa coletiva: Ninguém é inocente. Até Aliocha, o “puro”, está implicado pela sua passividade?
5. Reflexão para Nossos Dias
Por que ler os Karamazov hoje? Porque a pergunta central do livro não é “quem matou Fiódor?”, mas “como vivemos juntos em um mundo sem certezas?”. A crise da família Karamazov é a crise da sociedade moderna: individualismo, niilismo, a sede por transcendência.
O Primeiro Livro nos prepara para isso: mostra que a tragédia não começa com um assassinato, mas com a erosão dos laços, com a falta de amor.
Pensamento Final
Dostoiévski, no prólogo, parece sussurrar: prestem atenção aos detalhes. O riso escarninho de Fiódor, o silêncio de Ivan, a angústia de Dmitri, a fé de Aliocha – tudo é sintoma de um mundo à beira do abismo. E nós, leitores do século XXI, reconhecemos algo desse abismo em nosso próprio tempo.
Na próxima edição, mergulharemos no Livro Segundo: “Um Incontro Reunião Inadequada”.
Que tal reler esses primeiros capítulos com esse olhar?
Até breve,
Equipe Coins